A Amazônia, tesouro da Criação e guardiã de um bioma sem igual, encontra-se hoje sob a pesada sombra de um “ponto de não retorno”, uma fronteira que, uma vez cruzada, poderia selar o destino de sua exuberância e impactar o equilíbrio climático global. Não é um alarme vazio, mas uma advertência que se alicerça em dados concretos: mais de 21% da floresta original brasileira já foi suprimida, e vastas áreas continuam sob degradação. A estatística de que mais de 90% dessa devastação se destina à abertura de pastagens fala por si, desenhando um cenário onde a voracidade econômica muitas vezes atropela a ordem natural das coisas. É uma preocupação legítima, que ecoa nas entranhas da fé que nos convoca à salvaguarda da casa comum e à reverência pela vida em todas as suas formas.
Os números dos últimos anos confirmam o cenário de risco. Entre 2001 e 2018, centenas de milhares de quilômetros quadrados já haviam sido degradados, e esse ritmo se acelerou a partir de 2019, resultando na perda de florestas primárias em uma escala equivalente à área de estados inteiros. A suspensão recente da moratória da soja, que por duas décadas serviu como um anteparo, expõe agora mais 130 mil quilômetros quadrados de floresta à vulnerabilidade, enquanto projetos legislativos tramitam no Congresso para flexibilizar ainda mais as poucas amarras legais que ainda protegem o bioma. A ameaça é real, os interesses são poderosos, e a pressão sobre os povos autóctones e as comunidades locais, que são os primeiros a sentir o impacto da destruição, só se intensifica.
Contudo, a verdade, para ser inteira, não pode se contentar com meias porções. Entre as projeções de colapso e as denúncias, emergem fatos que temperam o fatalismo e clamam por um juízo mais apurado. É preciso reconhecer que, no período mais recente, sob a gestão do terceiro mandato do governo Lula, o desmatamento na Amazônia brasileira apresentou uma redução significativa: de 9.064 km² entre agosto de 2022 e julho de 2023, caiu para 6.288 km² no ciclo seguinte, e para 5.796 km² entre agosto de 2024 e julho de 2025. Essa desaceleração, embora insuficiente para reverter a perda histórica, não pode ser ignorada. Ela demonstra que a ação de fiscalização, o comando e controle, e o esforço político podem, sim, frear a destruição, contradizendo a tese de uma inevitabilidade irremediável e de uma solução que reside apenas na purga eleitoral.
O problema da Amazônia não se reduz a um embate maniqueísta entre “vilões do agro” e “heróis da floresta”. Ele é, em sua essência, um desafio multifacetado de justiça e responsabilidade, permeado por dinâmicas complexas. A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, ensina que a propriedade tem uma função social e que os bens da terra são para todos, demandando uma administração prudente e equitativa. A exploração desordenada, a grilagem, a mineração ilegal, a pobreza rural e a própria demanda global por commodities agrícolas são todos vetores que contribuem para a degradação, e não podem ser imputados a um único setor ou grupo político. Demonizar o agronegócio por completo, sem distinguir entre práticas predatórias e inovações sustentáveis, simplifica excessivamente uma equação que exige diálogo e construção de alternativas viáveis.
A solução duradoura para a Amazônia não virá de campanhas eleitorais focadas em “mandar de volta para casa” este ou aquele legislador, por mais legítima que seja a indignação diante de projetos nefastos. Ela exige a veracidade na análise dos fatos e a responsabilidade na construção de políticas públicas que vão além do paliativo. A suspensão da moratória da soja pelo CADE, por exemplo, deve ser avaliada em seu racional econômico e legal, e não apenas sumariamente condenada, exigindo um balanceamento delicado entre a livre concorrência e a preservação ambiental. O fortalecimento das comunidades locais, a regularização fundiária justa, o investimento em bioeconomia e a criação de cadeias produtivas sustentáveis, em consonância com o princípio da subsidiariedade de Pio XI, são vias concretas que promovem o desenvolvimento integral, em vez de um confronto estéril.
A vitória indígena no Tapajós em fevereiro, um farol de resistência e sucesso na defesa territorial, nos lembra que a capacidade de articulação local e a defesa intransigente dos direitos dos povos tradicionais são peças fundamentais nesse xadrez. É preciso olhar para esses exemplos não como eventos isolados, mas como parte de uma estratégia mais ampla de governança e proteção, que passa pela fiscalização rigorosa, mas também pelo incentivo e pela promoção de um desenvolvimento que respeite os ciclos da natureza e a dignidade humana. Não é a estatolatria ou a ideologia, mas a justiça social aplicada à terra e ao trabalho, que pavimentará o caminho.
A Amazônia não está condenada, mas exige de nós um compromisso sério e uma ação coordenada. Não é na política de extermínio nem no alarme fatalista que se encontra a solução, mas na conversão dos corações e na inteligência da fé que vê na floresta um santuário e na terra um dom. A Amazônia ainda pode ser salva, mas apenas se a justiça prevalecer sobre a voracidade, e a responsabilidade sobre a retórica vazia.
Fonte original: racismoambiental.net.br
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.