A paisagem política do Amazonas, rica em sua complexidade natural e humana, por vezes parece desafiar a própria vitalidade democrática. Com as eleições de 2026 no horizonte, uma profusão de pré-candidaturas emerge, e o que salta aos olhos é a familiaridade dos nomes: uma dança das cadeiras entre figuras já conhecidas que, como rochas antigas, parecem perenemente ancoradas no leito do rio político, mesmo quando a correnteza social exige novas paisagens. David Almeida, Maria do Carmo, Omar Aziz, Eduardo Braga, Plínio Valério, Capitão Alberto Neto, Chris Melchior, Marcos Rotta, Wilson Lima, Marcelo Ramos, Rodrigo Sá – a lista se estende, composta por prefeitos, ex-governadores, senadores e deputados que já percorreram e repassam os mesmos caminhos do poder.
Não há, em si, demérito na experiência. Pelo contrário, a vida pública prolongada pode conferir um conhecimento aprofundado da máquina estatal e das particularidades do estado, um traquejo que se converte em capacidade de articulação e em estabilidade governativa. Quem governa bem e demonstra competência, é justo que seja reconhecido pelo povo e que a ele se confira a responsabilidade da liderança. O bom governo requer maturidade e a habilidade de mover as engrenagens burocráticas sem que a máquina rasteje. Mas a justiça, virtude cardeal que ordena a sociedade, exige mais do que a mera continuidade de rostos conhecidos. Ela demanda uma constante ordem justa que permita a oxigenação, a renovação de ideias e a inclusão de novas vozes no concerto público.
É neste ponto que a recirculação incessante dos mesmos atores se torna uma questão de fundo, merecendo um escrutínio à luz da Doutrina Social da Igreja. O princípio da subsidiariedade ensina que a sociedade não deve ser dominada por uma estrutura centralizada, mas deve estimular a autonomia e o protagonismo dos corpos intermediários e das esferas menores. No campo político, isso significa fomentar a capacidade de emergência de novos líderes e associações livres, de modo que a vitalidade democrática não seja asfixiada pela concentração do poder em poucas mãos ou grupos familiares. A crítica de Pio XI à estatolatria pode ser estendida a uma “politicolatria” que sacraliza as elites políticas existentes, em detrimento do bem da cidade e da plena participação cidadã.
Quando os mesmos nomes apenas trocam de cargo, surge uma inevitável fadiga do eleitorado e uma corrosão da veracidade do debate público. Como avaliar a responsabilidade de gestões passadas, se os atores simplesmente se transfiguram em novos papéis, levando consigo as mesmas redes de influência e o mesmo capital político? A ausência de uma renovação real não só limita as perspectivas e a diversidade de ideias para enfrentar os desafios persistentes da Amazônia, mas também eleva barreiras quase intransponíveis para a entrada de novos talentos. Não se trata de uma rejeição simplista à experiência, mas de exigir que a experiência sirva à inovação e à transformação, e não apenas à manutenção de um status quo confortável. O risco é que a “estabilidade” apregoada se revele uma estagnação, e a “segurança” das figuras já testadas impeça a irrupção de uma agenda política verdadeiramente magnânima, capaz de projetar o futuro com criatividade e coragem.
A política, em sua essência mais nobre, é a arte de cuidar do destino comum. E esse cuidado exige que o campo esteja sempre aberto para que novas sementes germinem. Um sistema político que se fecha em torno de si, reciclando as mesmas promessas e os mesmos perfis, perde a capacidade de responder às demandas emergentes da população e de inspirar a esperança na próxima geração de líderes. A vitalidade democrática do Amazonas, tal como a sua floresta, precisa de clareiras onde o sol possa penetrar e alimentar o novo crescimento, sem que as árvores antigas, por mais frondosas que sejam, bloqueiem permanentemente a luz.
Assim, o desafio posto à sociedade amazonense e aos seus quadros políticos é o de discernir: o que é legítima experiência a ser valorizada, e o que é mera recirculação conveniente que impede a renovação? A justiça e a veracidade exigem que a escolha não seja apenas entre variações do mesmo, mas que se abram caminhos reais para a emergência de uma liderança diversa e comprometida com a ordem justa. Um governo verdadeiramente sábio reconhece que a perenidade do bem comum não se garante pela repetição dos atores, mas pela constante capacidade de florescer, adaptando-se e crescendo, nutrido por raízes profundas e novas brotações.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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