Quando a fachada de uma casa é adornada com novas cores e desenhos, os olhos desatentos podem celebrar a renovação sem questionar os alicerces. Assim se apresenta o caso do Amapá, que, com seus 27% a 30% de mulheres eleitas nos últimos pleitos, ostenta uma representatividade feminina significativamente superior à média nacional e a estados como Mato Grosso e Goiás. Um olhar superficial poderia concluir por um avanço inconteste na igualdade de gênero na política, uma ruptura com as velhas estruturas que mantinham o poder em mãos masculinas. Mas a realidade política, como a moral, exige mais do que números; exige veracidade sobre a natureza do que se celebra.
Afinal, a que se deve tal distinção? Hipóteses são muitas: uma cultura local peculiar, a ascensão tardia como estado federativo, um eleitorado menor e mais próximo das lideranças. No entanto, a informação que salta aos olhos e perturba a narrativa simplista é que, das sete deputadas estaduais amapaenses, todas são esposas ou irmãs de políticos já estabelecidos – prefeitos, vereadores, ex-deputados. Alliny Serrão, a primeira mulher a presidir a Assembleia Legislativa do Amapá, carrega a tradição política da família do marido. Esta não é uma mera coincidência; é um dado estrutural que obriga a um juízo mais apurado.
Não se trata, pois, de um florescimento orgânico e independente da liderança feminina em virtude própria, mas de uma inserção largamente mediada, e talvez condicionada, por laços familiares preexistentes no jogo político. O que se observa, em lugar de um empoderamento autônomo, é a potencial perpetuação de clãs políticos masculinos que, astutamente, adaptam-se à demanda por mais representatividade de gênero, utilizando mulheres de seu círculo íntimo como extensões de seu capital político. É uma estratégia que, sob a bandeira da inclusão, pode consolidar um patrimonialismo com nova roupagem.
A Doutrina Social da Igreja, inspirada em São Tomás de Aquino, clama pela justiça na ordem social e política, que se manifesta não apenas na igualdade de oportunidades formais, mas na reta ordenação dos meios para um fim verdadeiro: o bem comum. Ora, se o acesso ao poder é largamente filtrado por relações de parentesco, as vozes independentes, as candidaturas de base e as lideranças femininas que não compartilham de tal capital familiar encontram-se em desvantagem ainda maior. O “povo”, em sua diversidade e capacidade de discernimento, é substituído por uma “massa” de eleitores que, talvez sem perceber, legitimam um sistema que se renova nas aparências para não mudar na essência.
Essa dinâmica não é um avanço na subsidiariedade, que prega o fortalecimento dos corpos intermediários e das esferas de decisão mais próximas do cidadão, mas sim o seu desvirtuamento. Fortalecer a família como base da sociedade é um preceito cristão, mas instrumentalizá-la para a perpetuação de poder político dinástico é confundir o amor doméstico com a vocação pública. A verdadeira participação exige autonomia e mérito, não herança de influência. A crítica à estatolatria de Pio XI pode ser estendida a uma “dinastolatria”, onde a família política suplanta a legítima busca pelo interesse de todos.
É preciso, portanto, que a veracidade ilumine os fatos. O Amapá pode ter números invejáveis de mulheres eleitas, mas a análise qualitativa revela um desafio persistente. O contraste com Mato Grosso, onde a barreira para a representação feminina é outra (agronegócio dominado por homens, extensão territorial, custo de campanha), serve para ilustrar que as patologias da representação são múltiplas, mas igualmente prejudiciais. A sociedade avança não apenas quando muda a face de quem ocupa os assentos, mas quando a própria estrutura de acesso a esses assentos se torna mais justa, meritocrática e verdadeiramente aberta a todos.
Um progresso que não distingue a fachada do alicerce é uma ilusão que se desfaz ao menor tremor.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.