Quando o jornal inglês The Guardian proclamou Alter do Chão a ‘melhor praia brasileira’, e a Azul Linhas Aéreas anunciou voos extras para o ‘Caribe Amazônico’, a Amazônia ganhou mais uma vitrine, mas também uma nova e complexa encruzilhada. A beleza natural, inegável, do encontro das águas mornas do Tapajós com suas areias brancas, revelou-se um tesouro que, uma vez descoberto, corre o risco de ser desvirtuado. O vilarejo, com sua Festa do Sairé, lendas dos botos Tucuxi e Cor-de-Rosa, e as comunidades ribeirinhas que guardam a Floresta Nacional do Tapajós, atrai agora os olhares do mundo. Mas o que se celebra como progresso pode, na verdade, ser o prenúncio de uma erosão, tanto ambiental quanto cultural, se não houver discernimento e responsabilidade.
A exaltação quase mística de Alter do Chão esconde a fragilidade de seu ecossistema e a vulnerabilidade de sua gente. A promessa de um fluxo turístico crescente, embalada por comparações com o Caribe, por vezes ignora a capacidade real de saneamento, a gestão de resíduos e a infraestrutura local, já precária. O aquífero do Tapajós, uma gigantesca reserva de água doce, e as praias fluviais, sensíveis à poluição, correm o risco de se verem sobrecarregados por uma demanda desenfreada. A espetacularização da Festa do Sairé, outrora uma manifestação genuína da religiosidade e arte do Norte, pode transformar tradição em mero produto de consumo, roubando sua alma para satisfazer a curiosidade efêmera do forasteiro.
É preciso recordar a distinção, feita por Pio XII, entre povo e massa. As comunidades ribeirinhas de Alter do Chão constituem um povo, com identidade, laços e uma cultura viva, que se sustenta na relação harmônica com o rio e a floresta. O turismo desordenado, porém, corre o risco de converter esse povo numa massa informe de provedores de serviços para uma massa de consumidores, que buscam uma paisagem para usar, não um lugar para habitar. É a loucura lógica de transformar uma joia amazônica em um simulacro, trocando sua identidade única por um rótulo genérico e comercialmente palatável. Chesterton, em seu paradoxo, diria que o moderno, em sua ânsia de tudo possuir e redefinir, acaba por esvaziar o que mais preza.
A verdadeira vocação de um destino como Alter do Chão exige temperança. Não se trata de fechar as portas ao mundo, mas de ordenar o desejo e o uso dos bens, reconhecendo que a beleza da criação não é um recurso ilimitado à disposição do frenesi de mercado. A expansão de voos e a afluência de capital devem vir acompanhadas de uma responsabilidade que assegure a justa distribuição dos benefícios, evitando que o lucro se concentre em grandes operadores externos, enquanto os moradores locais amargam o aumento do custo de vida e a perda de autonomia. A lógica da subsidiariedade, tão cara à Doutrina Social da Igreja, impõe que as decisões sobre o desenvolvimento local sejam tomadas o mais próximo possível das comunidades afetadas, valorizando os corpos intermediários e o saber de quem ali vive e preserva.
Se a propriedade tem função social, como ensinava Leão XIII, também o turismo, enquanto aproveitamento de um bem comum, deve tê-la. As comunidades ribeirinhas não são cenários folclóricos, mas guardiãs de um patrimônio cultural e ambiental inestimável. Fortalecer sua capacidade de gestão, investir em infraestrutura sustentável e garantir transparência na distribuição de rendas não é um favor, mas um dever de justiça. Caso contrário, a ameaça genérica dos “interesses econômicos” à floresta se materializará justamente na ganância irrefletida de um turismo de massa.
A vitalidade de Alter do Chão não está em seu ecoar distante de um Caribe transplantado, nem na velocidade do crescimento irrefletido. Reside na sua capacidade de acolher o visitante sem se desvirtuar, de crescer com temperança e responsabilidade, preservando o que a faz única: a alma de um povo e a pureza de um rio.
Fonte original: Estadão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
Artigos Relacionados
Off-Grid Solar: A Ilusão da Autonomia e Custos Reais