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Ali Larijani: A Filosofia Instrumentalizada pela Repressão no Irã

Ali Larijani, filósofo e figura chave do Irã, personifica a perversão da razão. Sua defesa da liberdade contrasta com a repressão, censura e manipulação que impõe, revelando a instrumentalização do poder.

🟢 Análise

Há mentes que dissecam Kant em suas páginas acadêmicas para, em seguida, aplicar os mesmos princípios de rigor lógico à engenharia de um aparato de repressão implacável. Essa é a sombra longa de Ali Larijani, o intelectual forjado nas academias de filosofia, hoje apontado como a figura mais poderosa do Irã, um homem cuja trajetória espelha a contradição visceral de um regime que instrumentaliza a razão para justificar a força. O jornal Haaretz o descreve como um operador implacável do Estado, mas também um pensador que publicou livros sobre Immanuel Kant, defendendo a “liberdade de pensamento como um direito” e a “democracia como um caminho metodológico” para o bem-estar da nação. A questão, portanto, não é a falta de erudição, mas a perversão dela.

O mesmo homem que defende que “a mudança cultural não pode ser imposta por meio de pressão social rígida”, e que a “arte usa emoção e sensibilidade, mas a direção da arte deve ser a transcendência”, foi o arquiteto da censura no Ministério da Cultura e o chefe por onze anos de uma máquina de propaganda estatal que sufocou a imprensa livre e produziu filmes falsos para manipulação política. Como se pode reconciliar a tese doutoral sobre a filosofia da matemática de Kant com a repressão brutal de manifestantes, descritos pelo próprio Larijani como “terroristas sob direção de Israel”? Aqui, a veracidade não é apenas comprometida, é esmagada sob o peso da conveniência ideológica.

Larijani afirma que “75% das demandas do povo iraniano são econômicas”, mas a resposta do regime aos protestos foi primariamente repressiva e militar, custando milhares de vidas civis. Esta desproporção não revela pragmatismo, mas um flagrante desrespeito pela dignidade dos cidadãos e por suas aspirações legítimas. O conceito de “povo versus massa”, tão caro a Pio XII, ressoa aqui com uma força trágica. Um povo é um corpo orgânico que participa da vida cívica e das decisões que o afetam, dotado de inteligência e consciência; uma massa, por outro lado, é um aglomerado informe a ser manipulado e controlado. Ao desqualificar as dores reais dos iranianos como mera agitação terrorista, o regime rebaixa seu povo à condição de massa, subvertendo qualquer pretensão de governança para o “bem-estar da nação”.

A ironia atinge seu ápice quando Larijani, o paladino da “democracia como um caminho metodológico para o sucesso”, teve suas próprias candidaturas presidenciais barradas duas vezes sob o argumento de “estilo de vida insuficientemente devoto”. O sistema que ele ajudou a construir, e do qual se tornou a personificação mais brutal, não tolera sequer a mais mínima nuance que possa perturbar sua fachada monolítica. É a demonstração cabal de que a liberdade, quando reduzida a um conceito meramente instrumentalizado para a perpetuação do poder, perde sua essência e se transmuta em sua antítese mais cruel. A justiça é, portanto, não apenas adiada, mas sistematicamente negada em nome de uma ordem que se pretende sacra, mas que na prática é profundamente profana.

No cenário internacional, a retórica agressiva de Larijani, que chegou a ameaçar o presidente Donald Trump, e sua coordenação das respostas militares do regime, são atos que revelam uma escalada calculada de tensão. Proteger a soberania nacional, como alegam seus defensores, não se traduz em isolamento e confrontação perpétua, que inevitavelmente recaem sobre o custo de vida e a segurança dos cidadãos. A verdadeira grandeza de um Estado, e de seus líderes, não reside na capacidade de ameaçar ou reprimir, mas em construir pontes, buscar a paz justa e assegurar a prosperidade real para o seu povo, dentro de uma ordem internacional que respeite o direito.

É o paradoxo da ideologia moderna que, ao pretender uma ordem superior, constrói uma jaula para a verdade e a justiça. O que resta não é filosofia, mas a perversão dela, um simulacro de governança que, cedo ou tarde, se desfaz sob o peso da realidade que tentou sufocar. A sanidade não reside em justificar a brutalidade com tratados de filosofia, mas em reconhecer que a ordem verdadeira brota da verdade e da justiça, e não da sombra longa de um intelectual que silencia seu próprio povo.

Fonte original: Brasil 247

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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