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Alepe: Troca de Partidos e a Crise da Coerência em Pernambuco

Na Alepe, 28 deputados trocaram de partido na janela, guiados por sobrevivência eleitoral. Essa volubilidade corrói a veracidade da representação política em Pernambuco e fragiliza a democracia.

🟢 Análise

A praça pública, onde se constroem os destinos de uma comunidade, deveria ser como um mapa de navegação: um guia claro, com rotas definidas e faróis que indicam portos seguros. Contudo, o que se assistiu na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) durante a recente janela partidária assemelha-se mais a um naufrágio coletivo da coerência, com 28 dos 49 deputados estaduais trocando de embarcação no meio da travessia. O cientista político Hely Ferreira diagnostica a realidade sem rodeios: a troca é ditada pela “sobrevivência eleitoral”, não por “conteúdo programático” ou “questão ideológica”. Uma constatação que, embora factual, levanta mais questões do que respostas sobre a saúde de nossa representação.

É certo que a legislação prevê e legitima a “janela partidária”, permitindo a reacomodação de forças e, segundo alguns, a adaptação dos eleitos a novas realidades políticas ou mesmo a um realinhamento ideológico (ainda que raro). É também inegável que, no Brasil, o voto muitas vezes se apega mais à figura do candidato do que à bandeira da legenda. Negar essa dinâmica seria ingenuidade. Mas a legalidade e a descrição de um fato não eximem a prática de um escrutínio moral e institucional mais profundo. A estabilidade de um sistema não se mede apenas por sua capacidade de se adaptar, mas pela solidez dos princípios que orientam essa adaptação.

O ponto nevrálgico reside na virtude da veracidade. Se um parlamentar pode flutuar de um partido “de ideias sociais democráticas” para um “liberal” em eleições sucessivas, sem que isso suscite um questionamento substancial de sua base, o que resta do compromisso programático que deveria guiar sua ação e o voto do eleitor? Os partidos, que deveriam ser autênticos corpos intermediários – agregadores de visões de mundo, defensores de propostas e construtores de identidades políticas – transformam-se em meros balcões de negócios eleitorais, ou pior, em veículos intercambiáveis para ambições pessoais. Essa fluidez, ao invés de oxigenar o sistema, drena-lhe a substância, tornando opaca a linha entre promessa e execução para o eleitor.

A consequência prática é a corrosão da responsabilidade. Não se trata apenas da responsabilidade individual do político em ser coerente, mas da responsabilidade coletiva dos partidos em edificar uma ordem moral pública que transcenda a mera sobrevivência eleitoral. Como a Assembleia Legislativa pode garantir a formação de maiorias estáveis e coerentes para deliberação, fiscalização e continuidade de uma agenda programática quando suas bancadas são reconfiguradas com tamanha volubilidade a cada ciclo eleitoral? A governabilidade torna-se refém de alianças personalistas e casuísticas, fragilizando o próprio tecido institucional e a capacidade de servir ao bem comum de forma previsível e efetiva.

Há um paradoxo aqui, bem ao feitio dos enredos de Chesterton: a liberdade concedida para a mobilidade partidária, que deveria em tese aprimorar a representação, acaba por gerar uma espécie de cativeiro ao oportunismo. A busca pela reeleição, este motor primário apontado pelo especialista, não é um mal em si, mas torna-se um vício quando sobrepõe-se à fidelidade programática e à construção de uma base política robusta. É a sanidade da representação sendo desafiada por uma lógica que, de tão pragmática, beira a loucura, fazendo com que a ideia de um “partido” se esvazie em favor da “pessoa” — não como indivíduo com princípios, mas como força eleitoral desancorada.

A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, enfatiza a importância das associações livres e da subsidiariedade na construção da sociedade. Os partidos, como associações políticas, têm a missão de organizar a vontade popular e traduzi-la em políticas públicas. Quando essa função é subvertida pela lógica da “sobrevivência eleitoral” como motor exclusivo, a democracia representativa padece. Não basta ao eleito ser legalmente elegível; é preciso que seja confiável, não apenas pela sua figura, mas pela fidelidade ao mandato implícito que o eleitor confere a um programa e a um conjunto de ideias que o partido deveria encarnar.

Em Pernambuco, a dança das cadeiras na Alepe não é apenas um movimento tático; é um sintoma da fragilidade que assola a veracidade da política. Para além da contabilidade dos votos, o desafio é reconstruir a confiança nas instituições partidárias, exigindo delas e de seus membros uma responsabilidade que transcenda o próximo pleito. O verdadeiro mapa da nação é traçado com a tinta da coerência, e não com a volatilidade dos humores eleitorais.

Fonte original: Diario de Pernambuco

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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