A ordem internacional, esse edifício precário erguido com a esperança de uma paz duradoura após os escombros de guerras mundiais, tem seus pilares corroídos não apenas por ataques diretos, mas também por um tipo de negligência seletiva que, sob o manto da pragmática, esvazia a própria estrutura. A recente postura da Alemanha, exemplificada pelo chanceler federal Friedrich Merz, frente às ações militares dos Estados Unidos e Israel no Irã e na Venezuela, é uma dessas corrosões silenciosas, porém devastadoras. Enquanto Merz condena com veemência a violação do direito internacional pela Rússia na Ucrânia, ele hesita em aplicar o mesmo rigor aos aliados ocidentais, cujas forças mataram civis e capturaram um chefe de Estado, ações amplamente consideradas ilegais pela grande maioria dos especialistas. O “dilema” e a “complexidade” invocados para justificar essa dissonância não são meros eufemismos; são as rachaduras no alicerce da justiça.
Essa inconsistência não é um mero deslize diplomático, mas uma falha moral grave. O direito, para ser direito, deve ser universalmente aplicável. Quando a lei se dobra à conveniência dos mais fortes ou à lealdade de alianças estratégicas, ela deixa de ser uma medida de justiça e se torna um instrumento do poder. A doutrina social da Igreja, desde Pio XII, tem alertado sobre o perigo de uma ordem internacional que falha em proteger os mais fracos — o “povo” — da massa amorfa e sem freios do poder. A verdade não é um bem negociável: ou uma ação é ilegal, ou não é, e sua qualificação não pode depender da identidade de quem a executa.
Não surpreende que a voz da consciência alemã, na figura do presidente Frank-Walter Steinmeier, tenha se levantado para classificar a guerra no Irã como um “erro desastroso” e para sublinhar a importância do direito internacional para “todos que não pertencem às grandes potências”. A carta aberta de especialistas em direito internacional, denunciando que a postura do governo alemão “contribui para o enfraquecimento da ordem internacional”, ecoa essa mesma preocupação. O Sul Global, menos armado e mais dependente de um arcabouço jurídico para sua segurança, percebe de imediato essa assimetria, e sua segurança é comprometida por essa diplomacia de dois pesos e duas medidas.
É certo que a Alemanha, uma potência de porte médio, enfrenta as tensões da Realpolitik, onde a manutenção de alianças vitais, especialmente com os Estados Unidos, é uma consideração central para sua defesa e economia. O custo de uma condenação pública veemente contra um aliado estratégico pode ser percebido como desproporcional. Contudo, a sanidade de um Chesterton nos lembraria que, muitas vezes, a loucura mais perigosa veste a capa da lógica impenetrável, construindo “dilemas” sofisticados para ocultar escolhas simples de conveniência. A verdadeira fortaleza de uma aliança não reside na cumplicidade silenciosa ante a injustiça, mas na capacidade de seus membros de manterem a integridade moral, fortalecendo, e não erodindo, os princípios que deveriam reger todas as nações.
Tal relativismo não fortalece a Alemanha nem o Ocidente. Ao contrário, ele serve de munição retórica para potências revisionistas como a Rússia e a China, que rapidamente instrumentalizam a percepção de “padrões duplos” para deslegitimar qualquer crítica ocidental às suas próprias violações. A credibilidade de uma nação, assim como a reputação de um homem, é um capital moral arduamente conquistado e facilmente dilapidado. A defesa da ordem moral pública exige que se chame cada coisa pelo seu nome, sem ressalvas ou meias-verdades ditadas pelo cálculo geopolítico imediato. A segurança duradoura para a Alemanha, e para o mundo, não reside em manobras que corroem a lei, mas na edificação paciente e consistente de uma ordem justa para todos.
Quando a balança da justiça pende não pelo peso do direito universal, mas pela gravidade do poder de um aliado, o que se derruba não é apenas a coerência de uma nação, mas a esperança de uma ordem justa para os sem-poder.
Fonte original: O Povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.