Na arquitetura da república, onde cada promessa é um tijolo e cada decisão, uma argamassa, a solidez da obra não se faz com projeções para o futuro distante, mas com o alicerce fincado no presente. As declarações recentes do vice-presidente Geraldo Alckmin, delineando um ajuste fiscal apenas para 2027 – após uma eventual reeleição presidencial – e tecendo críticas contundentes à política monetária atual como “totalmente descalibrada”, erguem um debate que transcende a mera tática eleitoral. Revelam uma tensão fundamental entre a conveniência política do agora e a exigência de justiça para o amanhã, que clama por transparência e responsabilidade inadiável.
Alckmin, em sua visão otimista, afirma que o governo já promoveu uma melhora significativa nas contas públicas, comparando o debate atual sobre um superávit primário de 0% ou 0,5% com o déficit de quase 10% em 2020 – um ano atípico de pandemia. Atribui a inflação recente a fatores externos, como a variação do dólar, a seca e o petróleo, e posiciona-se em defesa da lealdade concorrencial ao manifestar-se contra a revogação da “taxa das blusinhas”. São pontos que, isolados, podem soar razoáveis, mas que, no conjunto, pintam um quadro onde a complexidade econômica é por vezes simplificada e as soluções mais exigentes são remetidas para um horizonte ainda incerto.
Para a Doutrina Social da Igreja, particularmente na senda traçada por Pio XI, a ordem econômica não se resume a malabarismos numéricos ou a acusações direcionadas, mas a uma gestão que busca a justiça social e a estabilidade duradoura. O Estado tem o dever de zelar pelos bens temporais, garantindo que as políticas fiscais e monetárias se alinhem ao bem comum, evitando onerar as gerações futuras com dívidas contraídas pela conveniência do presente. A crítica à política monetária, por mais legítima que possa ser em seu mérito sobre os juros, não pode desvincular-se da autocrítica fiscal. O dinheiro público, afinal, não brota do chão nem se dissolve no éter sem consequências; é fruto do trabalho e da contribuição do povo, e sua má gestão tem o poder de corroer a confiança e a estabilidade de toda a estrutura econômica.
A questão que se impõe, portanto, é a da veracidade do discurso: se o ajuste fiscal é, como Alckmin sugere, algo em que “é preciso avançar mais”, por que adiar o que é necessário para depois da eleição de 2026? A lealdade concorrencial, corretamente defendida no caso dos impostos sobre importados, exige que as regras do jogo sejam claras e aplicadas com isenção, e não que se postergue a reorganização do tabuleiro por puro cálculo político. Atribuir a inflação predominantemente a fatores externos, como dólar, seca e petróleo, enquanto se postergam reformas fiscais e se mantém um patamar de gastos que pressiona a demanda, é uma simplificação que ignora a interrelação intrínseca entre as políticas de governo e a estabilidade de preços.
A busca por uma “frente ampla” de apoio à reeleição, com “oito partidos já encaminhados”, embora possa denotar capacidade de diálogo, levanta a questão da coesão programática e da magnanimidade para governar de fato, e não apenas para vencer pleitos. O risco é que tal arranjo, em vez de consolidar uma base de governança robusta, capaz de enfrentar reformas difíceis, como o próprio ajuste fiscal, se torne um amálgama de interesses dispersos, pautado pela distribuição de cargos e não por um projeto civilizacional para o país. Pio XII já nos advertia para a distinção entre povo e massa: o povo se articula em corpos sociais, enquanto a massa é manipulável, moldável por narrativas convenientes. Um governo sólido se constrói com um povo consciente, não com uma massa desinformada.
A política, em sua essência, não pode se furtar à verdade e à justiça sob o pretexto da prudência eleitoral. Os fatos econômicos, como os alicerces de um edifício, devem ser sólidos e não apenas cosméticos. Ignorar as exigências do presente para um futuro conveniente é hipotecar a estabilidade e a prosperidade de um país, sem garantias de que a promessa será, de fato, cumprida. A sabedoria política, afinal, não consiste em adiar a tempestade para o próximo governo, mas em construir o abrigo da estabilidade fiscal e da verdade econômica com as mãos no presente.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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