O palco político alagoano, nesta semana, montou um espetáculo de pré-candidaturas, com Arthur Lira a lançar sua corrida ao Senado e JHC a anunciar sua pretensão ao governo do estado. As movimentações, datadas de 20 de março de 2026, com Lira reunindo aliados pela manhã e JHC confirmando sua postulação no início da noite, desenham um cenário de fervura eleitoral que, à primeira vista, parece desafiar o poder estabelecido. Contudo, para além da dança das cadeiras e dos discursos de praxe, cabe indagar sobre a verdadeira substância desses arranjos e seus impactos na ordem da sociedade.
A começar pela cena do anúncio de JHC, prefeito de Maceió: a sede da Prefeitura, um edifício público destinado ao serviço da cidade, servindo de cenário para o lançamento de uma candidatura, é um sintoma da confusão entre o aparelho estatal e a ambição eleitoral. Tal prática fere a ordem institucional e a justa separação entre os bens do povo e as conveniências de campanha. A crítica à estatolatria, à subserviência do Estado aos interesses de facções ou indivíduos, ressoa aqui com força. Um governo justo não usa os bens comuns como degraus para ascensão particular, mas como instrumentos de serviço.
Ademais, a mobilização de “mais de oitenta prefeitos” pela assessoria de Arthur Lira, embora projete uma imagem de força, levanta a questão da motivação profunda de tais adesões. Serão alianças forjadas em programas concretos para o desenvolvimento do estado, ou são arranjos de conveniência, sensíveis ao vento dos recursos federais ou à pressão do poder central? A política, quando reduzida a um balcão de negócios, onde apoios são trocados por emendas ou cargos, perde a sua dignidade e afasta-se da busca pela veracidade no debate público. A formação de verdadeiras associações políticas, baseadas em princípios e na defesa de interesses legítimos, é distinta de coligações meramente personalistas e instrumentais.
A aparente consolidação de uma frente de oposição, tal como se apresenta, parece ser mais uma demonstração de força embrionária do que uma articulação política substancialmente coesa. O risco maior reside na personalização excessiva das alianças, que pode desviar o foco de debates sobre plataformas programáticas para meras questões de poder e cargos. Sem uma visão clara e compartilhada para a vida comum alagoana, sem um programa que transcenda os antagonismos pessoais, tais alianças tornam-se voláteis e frágeis, suscetíveis a implodir diante de tensões internas ou da capacidade de articulação do grupo político historicamente enraizado no poder.
O que se espera de uma verdadeira disputa política não é um embate de personalidades em busca de posições, mas uma concorrência de visões e propostas para o destino compartilhado do povo alagoano. A ausência de uma plataforma programática concreta, além do mero antagonismo ao grupo dominante, transforma o eleitorado em mera massa a ser mobilizada, e não em povo dotado de discernimento para escolher o melhor para sua cidade e estado. A política autêntica exige a justiça de apresentar argumentos sólidos e a honestidade de propor soluções que visem ao bem integral da sociedade, e não apenas à tomada de poder.
A Alagoas que se almeja edificar não nascerá de acordos de gabinete ou de shows de força, mas da magnanimidade de homens públicos que compreendam a política como um serviço à verdade e à ordem justa.
Fonte original: Tribuna do Sertão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.