A taça dourada que Lionel Messi ergueu nos céus do Catar em 2022, símbolo de um triunfo que transborda o campo e infunde uma nação inteira de orgulho, tem, agora, o brilho ofuscado. Não pelo revés em campo, mas pela poeira dos inquéritos e a tinta das acusações formais que recaem sobre os que deveriam zelar pelo coração administrativo do futebol argentino. A Associação de Futebol Argentino (AFA) e seu presidente, Claudio “Chiqui” Tapia, foram formalmente indiciados por sonegação fiscal e apropriação indébita de impostos e fundos previdenciários, num escândalo que transforma a glória esportiva em vitrine de um problema moral muito mais profundo.
Os fatos são frios e cabem na conta: o juiz Diego Amarante não apenas acusou formalmente a AFA e Tapia, mas também impôs um gravame de 350 milhões de pesos sobre seus bens e manteve a proibição de viagem do dirigente. Outros quatro diretores, incluindo o tesoureiro Pablo Toviggino, receberam a mesma ordem. A denúncia da Receita Federal Argentina (ARCA) aponta retenções indevidas e sonegação que somam aproximadamente 19 bilhões de pesos, revelando, segundo o magistrado, um “padrão de conduta sistemático e deliberado” para adiar os pagamentos. Ora, reter o que pertence ao erário público é um crime contra a reta ordem social, um desfalque ao destino comum que os impostos deveriam financiar. Não se trata de uma mera burocracia, mas de uma falta grave contra a justiça distributiva que sustenta qualquer sociedade civilizada.
Claro, não tardou a surgir a narrativa da “perseguição judicial” e da instrumentalização política. A AFA, por seu turno, nega a existência das dívidas, e os clubes, em gesto de solidariedade – ou de autoproteção corporativa –, suspenderam uma rodada do campeonato. É fato que o presidente Javier Milei é um crítico ferrenho da gestão da AFA e defende a conversão dos clubes em Sociedades Anônimas Esportivas (SAEs). A assimetria de poder entre o Estado e uma entidade civil é inegável, e o perigo de que a justiça seja manobrada para fins políticos é real e precisa ser vigilantemente combatido. A imparcialidade do processo é uma exigência inegociável da lei natural.
Mas a preocupação com a politização do processo não pode, por si só, servir de salvo-conduto para a irresponsabilidade fiscal ou para a impunidade. A lei moral não se dobra aos caprichos do poder ou às conveniências de uma federação. Segundo a Doutrina Social da Igreja, a administração dos bens, sejam eles públicos ou privados, exige probidade e transparência. O pagamento de impostos devidos é um dever de justiça fundamental para a sustentação dos serviços que beneficiam a todos. Pio XI já nos alertava sobre a necessidade de uma ordem profissional e social onde a `justiça` fosse o baluarte contra a `estatolatria`, mas também contra a apropriação indevida por parte de qualquer corporação que se julgue acima do bem comum.
É um paradoxo, diria Chesterton, que a nação que celebrou a mais pura sanidade do futebol com a conquista mundial, agora se veja enredada nas malhas de uma acusação tão prosaica quanto grave. A paixão pelo futebol, a glória dos títulos, a imagem de um povo vibrante nas arquibancadas, não podem encobrir nem santificar a desordem moral e a apropriação indébita nos gabinetes. O esporte, em sua pureza, é um bem que eleva o espírito, mas quando suas estruturas se corrompem, ele espelha o que há de mais lamentável na vida pública: a crença de que o sucesso esconde a falta de honestidade.
A proibição de viagem de Tapia, uma medida cautelar, levanta questões sobre sua proporcionalidade e o impacto na representação da AFA. Contudo, antes de clamar por um aliviamento, é preciso perguntar pelo `laboriosidade` e pela `responsabilidade` na gestão dos recursos. Se há um “padrão de conduta sistemático e deliberado” de sonegação, a autonomia das entidades não pode ser uma licença para a anomia. O judiciário tem o dever de investigar e julgar com base nos fatos, garantindo o devido processo legal a Tapia e à AFA, mas sem vacilar diante de um possível desfalque ao Estado, que é, em última instância, um desfalque ao povo.
Portanto, o desafio posto à Argentina transcende a mera disputa entre um governo e uma federação. Trata-se de reafirmar a primazia da lei e da `honestidade` na vida pública, mesmo quando o alvo é uma instituição tão querida. A glória do futebol, por mais que encha os corações, não pode ser construída sobre a injustiça nos livros. O verdadeiro amor à pátria se manifesta não apenas no grito de gol, mas na retidão dos atos de cada um que a serve.
A alma do futebol argentino, mais do que os cofres da AFA, está agora sob o crivo da `veracidade`. Que a sentença que venha a ser proferida não seja apenas um ato jurídico, mas um gesto de reconstrução moral para uma nação que merece que a honestidade e a ordem dos bens prevaleçam, da tribuna aos balancetes.
Fonte original: O Globo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.