Quando as colunas de um edifício de governo parecem ceder, e os tijolos que deveriam firmar sua base deslizam sob a promessa de novos arranjos, a cena que se desenrola no Acre é menos uma reestruturação natural e mais uma demonstração de volatilidade, perigosa para a saúde da coisa pública. A notícia de desestruturações na base do governador Gladson Cameli, com parlamentares migrando para o apoio à pré-candidatura de Alan Rick, vem embalada em um prognóstico de palanque, com sua linguagem carregada e suas fontes encobertas, que mais incendeia a narrativa do que ilumina os fatos. A veracidade dos acontecimentos, esmiuçada por “apurações da redação” e “rumores de bastidores”, já deveria acender um sinal de alerta sobre a solidez de tais projeções.
Não se pode, contudo, ignorar as preocupações legítimas que emergem desse quadro de incerteza. A transição de governo, especialmente quando a vice-governadora Mailza Assis assume sem uma base pré-articulada, e os parlamentares se movem movidos pela busca de reeleição, pode gerar instabilidade real. Projetos e políticas públicas importantes correm o risco de descontinuidade ou paralisação, e a eficácia da representação parlamentar pode ser comprometida pela priorização de interesses eleitorais individuais sobre a agenda coletiva do estado. A opacidade das negociações de bastidores, onde apoios são trocados por posições, também merece um escrutínio mais rigoroso, em nome da transparência devida ao cidadão.
Do ponto de vista da ordem, a migração política, embora parte do jogo democrático, revela frequentemente um desarranjo na hierarquia dos bens. O bem comum, que deveria ser a bússola de toda ação política, é, muitas vezes, suplantado por interesses particulares de poder e cargos. São Tomás de Aquino nos ensina que a sociedade se funda numa ordem natural que visa o fim próprio de cada criatura, e, no caso da vida política, o bem da cidade. Quando o interesse eleitoral se sobrepõe à lealdade institucional, à estabilidade da gestão e à continuidade administrativa, a estrutura social se fragiliza. A “falta de diálogo” ou o “direcionamento de estrutura” mencionados como justificativas não raro encobrem uma simples busca por um lado que pareça mais promissor.
A “linguagem carregada” da fonte jornalística, com seu título inconsistente e sua profusão de especulações (“devem acontecer”, “pode ocorrer”), não auxilia a retidão do juízo. Pelo contrário, ela contribui para transformar o “povo” em “massa”, conforme a distinção de Pio XII: um povo que discerne, que pesa os fatos e exige veracidade de seus líderes e de sua imprensa, em contraposição a uma massa manipulável por narrativas fabricadas e alarmismos infundados. A fabricação de um cenário de colapso iminente serve a interesses que transcendem a simples informação, e isso é um atentado à verdade pública.
A virtude da veracidade é, aqui, a chave mestra. Tanto para a imprensa, que deve se ater aos fatos confirmados e não às projeções hipotéticas, quanto para os atores políticos, que deveriam pautar suas decisões por princípios e não por oportunismo eleitoral disfarçado. A vice-governadora Mailza Assis, agora no comando, necessita de prudência para navegar nesse ambiente volátil, diferenciando o ruído das negociações do compromisso genuíno com a administração do estado. Uma indefinição calculada pode ser, de fato, uma estratégia para não herdar um arcabouço frágil, mas construir uma base própria e mais sólida.
A verdadeira força de um governo não reside na rigidez de suas alianças, mas na solidez de seus fundamentos morais e administrativos. A transição de poder é um momento de reajustes, sim, mas não de desmantelamento irresponsável. Os atores políticos do Acre, antes de “abraçar” pré-candidaturas ou “migrar” de base, deveriam se perguntar qual é o arranjo que melhor serve à ordem justa do estado, aos seus cidadãos, e não aos anseios imediatos de reeleição. A justiça exige que a administração não seja um palco de teatro de sombras, mas um campo de trabalho real e contínuo.
A política, afinal, é a arte do possível no campo do moral. E o moral não admite que as fundações de uma casa sejam dinamitadas apenas para se erguer uma barraca mais conveniente.
Fonte original: O Alto Acre
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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