A paisagem política, muito como qualquer casa, revela sua solidez não apenas nos momentos de bonança, mas quando os alicerces são postos à prova. As recentes movimentações na base do governo do Acre, com deputados e aliados anunciando apoio a uma pré-candidatura de oposição, não são meras deserções ideológicas; antes, um sintoma claro de fissuras na estrutura interna, acentuadas pela iminência de uma transição de poder.
O afastamento de figuras como o deputado Eduardo Ribeiro, até então vice-líder e próximo do governador, e a expectativa em torno de Tadeu e Fernanda Hassem, ou mesmo a exoneração de cargos ligados a Gene Diniz, sugerem algo além do mero jogo de cadeiras. Não se trata, como querem alguns, de uma implosão generalizada e irresistível por força externa. Pelo contrário, as preocupações legítimas apontam para um desconforto interno: a percepção de que a máquina governamental, ainda sob a batuta do atual comando e com a futura governadora em silêncio estratégico, já direciona seu apoio a certos nomes, deixando outros aliados sem clareza sobre sua viabilidade eleitoral ou seu lugar no próximo arranjo. O medo de “ficar na mão”, de ver os recursos e a estrutura política centralizados em poucas candidaturas, é o catalisador destas buscas por um novo porto.
Sob a luz da Doutrina Social da Igreja, o comportamento de uma base política não deve ser reduzido a um cálculo frio de adesões ou dissidências. O governo, como autoridade legítima e provedor da ordem justa, tem o dever de tratar seus aliados não como uma massa indistinta a ser manipulada conforme a conveniência eleitoral, mas como corpos intermediários com necessidades e responsabilidades próprias. A justiça demanda transparência na distribuição de apoios e no reconhecimento do mérito e da base eleitoral de cada um. Quando essa clareza falta — seja por silêncio estratégico ou por direcionamento preferencial —, a veracidade da relação política é comprometida, e a prudência na governança é posta em xeque. A incerteza que emana do Palácio Rio Branco, com a iminente posse de Mailza Assis, que “não sinaliza nada antes de sentar na cadeira”, é um vácuo de liderança que nutre a instabilidade e a busca por realinhamentos.
A sanidade política, combatendo a loucura lógica das ideologias, exige que se enxergue a realidade para além das abstrações. É uma ilusão esperar lealdade cega de uma base quando a própria liderança se furta a articular um projeto claro e um arranjo justo para a continuidade institucional. O que se observa, então, não é uma revolta sem causa, mas um movimento de autoproteção e busca por viabilidade em face de um campo político que parece já ter os favoritos. Este ambiente de indefinição corrói a cooperação orgânica necessária para uma governabilidade estável, transformando o diálogo em sussurros de bastidores e a confiança em desconfiança velada.
Reduzir tais movimentações a uma “implosão” ou a uma mera prova da força de um adversário é simplificar em demasia um cenário complexo. É mais preciso vê-las como a resposta pragmática de atores políticos que, ante a ausência de um governo sábio e claro, buscam fortalecer o que está perto de suas bases eleitorais e garantir seu espaço. A estrutura governamental, ao falhar em sua articulação política e ao não fornecer as garantias mínimas aos seus aliados, cria as condições para que estes busquem a sobrevivência noutros arranjos, onde vislumbram alguma chance de prosperar.
O desafio que se apresenta à futura governadora Mailza Assis não é apenas o de recompor uma base, mas de reconstruir os alicerces da casa política do Acre com honestidade e laboriosidade. Não bastam promessas vagas; é preciso um plano concreto de articulação política que reconheça o valor de cada parceiro e distribua encargos e apoios com equidade. A falta de definição não é neutralidade; é uma opção que gera insegurança e desordenamento. A forte liderança política é definida pela sua capacidade de organizar e inspirar lealdade, não pela sua omissão ou por cálculos exclusivos de poucos. A paz social e a ordem justa dependem, em grande medida, da capacidade dos governantes de agir com discernimento político, garantindo que os anseios legítimos de todos os envolvidos encontrem eco na construção do destino comum.
Fonte original: O Alto Acre
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.