O curso de um rio, em sua sabedoria milenar, ensina que a força não reside apenas na vazão caudalosa, mas na irrigação que alcança a terra mais sedenta, nas margens que sustenta e na vida que faz florescer em seu trajeto. Assim também deveria ser a torrente dos recursos públicos, especialmente quando anunciados com a pompa de um novo tempo para o desenvolvimento. No Acre, a notícia de um aporte de R$ 120 milhões do BNDES, destinado a “sustentabilidade e redução de vulnerabilidades socioeconômicas”, surge como uma promessa de cheia benfazeja. Ricardo Brandão, Secretário de Planejamento, celebra o “desenvolvimento socioeconômico sustentável, inclusivo e com justiça climática”. Os sete projetos apresentados, de usinas fotovoltaicas a centros de artesanato e um jardim botânico, são pintados com as cores vibrantes do progresso. Contudo, em meio ao otimismo oficial, ecoam as perguntas incômodas, as legítimas objeções de quem olha para a torrente e se pergunta: quais terras serão verdadeiramente irrigadas?
A Doutrina Social da Igreja, particularmente pelos ensinamentos de Pio XI sobre a justiça social e a subsidiariedade, adverte que o progresso genuíno não se perfaz por meras intenções ou discursos de alto tom, mas pela reta ordenação dos bens e pela prioridade daquilo que serve diretamente ao bem comum dos mais necessitados. A subsidiariedade, virtude basilar, exige que a mão do Estado não esmague as iniciativas locais, mas as fortaleça, e que os recursos públicos sejam geridos com a máxima transparência e veracidade. Ora, quando se destinam milhões a um Jardim Botânico Irineu Serra ou a um Centro de Artesanato e Turismo – empreendimentos que, em si, possuem seu valor e podem contribuir para a economia criativa – ao passo que perduram carências agudas em saneamento básico, saúde ou educação para vasta parcela da população acreana, a ordem dos bens se vê subvertida.
Não se constrói uma sociedade justa sobre as fundações da beleza ornamental enquanto as paredes da casa comum ainda vertem. A revitalização da bacia do Igarapé São Francisco, que promete beneficiar diretamente cerca de 70 mil pessoas com um investimento considerável, aponta para uma prioridade mais evidente, um investimento na vida concreta e na dignidade do povo, que é o verdadeiro tesouro da Amazônia. Mas a desproporção na alocação, a falta de justificativas claras para certas escolhas de grande vulto, revela uma miopia prudencial ou, pior, uma adesão mais forte à retórica de agendas do que à realidade do chão.
Será que, em sua ânsia por se alinhar a “agendas globais” e atrair investimentos sob rótulos grandiloquentes como “bioeconomia” e “transição energética”, os administradores não caem na armadilha da loucura lógica? Chesterton, com sua sagacidade, advertiria que a sanidade reside em reconhecer as urgências imediatas da “casa” antes de adornar o “jardim”. É fundamental distinguir o que é um bem em si do que é uma prioridade premente para um Estado com vulnerabilidades socioeconômicas profundas. A sustentabilidade verdadeira deve abraçar a totalidade da vida humana, começando pelo mais básico e vital.
A ausência de métricas claras de sucesso para cada um dos sete projetos, a lacuna em estudos de viabilidade técnica e econômica que justifiquem a priorização, a falta de um plano de contingência para os riscos inerentes à execução dos R$ 120 milhões e, sobretudo, a comunicação predominantemente otimista e unilateral, são indicativos de uma gestão que opera sob um véu. A verdade devida ao cidadão, que arcará com a dívida contraída, não pode ser substituída pela retórica promocional. A honestidade na gestão pública exige mais que promessas; exige fatos, planos e resultados mensuráveis, acessíveis e transparentes.
Um Estado que assume um crédito de tal monta tem o dever de irrigar não apenas as ideias de uma “nova economia”, mas a terra árida onde moram as necessidades mais prementes de seu povo. A verdadeira sustentabilidade, afinal, começa na dignidade de cada pessoa, na casa bem-feita e na mesa farta, para então, sobre essa base sólida, erguer os jardins e os centros que enriquecem o espírito. Que a água dessa operação não se perca em regadios suntuosos enquanto a seca castiga o que é essencial.
Fonte original: O Alto Acre
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.